Curso – Direção do tratamento: como se conduz uma análise?

Identificação

Instituição proponente: Travessia Psicanalítica

Docentes: Renata Wirthmann e Wesley Peres

Modalidade: On-line, ao vivo, com gravações disponíveis aos inscritos

Formato: Curso teórico-clínico

Carga horária sugerida: 14 horas

Número de encontros: 7 encontros de 2 horas

Público-alvo: Psicanalistas, psicólogos, estudantes de Psicologia, profissionais da saúde, da educação e demais interessados na clínica psicanalítica.

Apresentação

A questão que orienta o curso é: depois de reconhecer uma estrutura neurótica, como se conduz uma análise? Para responder a essa pergunta, o curso acompanhará o percurso clínico desde a chegada do sujeito até a construção da direção do tratamento, passando pela queixa, demanda, posição subjetiva, significantes, relação com o Outro, hipótese diagnóstica, transferência, enquadre, intervenções e impasses.

 

Justificativa

A formação em psicanálise exige o estudo dos conceitos, mas também a construção de operadores clínicos que permitam ler o que se passa em uma análise. Na clínica das neuroses, o diagnóstico estrutural oferece coordenadas importantes, mas não esgota a direção do tratamento.

É preciso considerar como cada sujeito apresenta sua queixa, como constrói uma demanda, de que modo se posiciona diante do sofrimento, quais significantes se repetem em sua fala, que lugar atribui ao Outro e como instala a transferência.

Este curso propõe avançar da teoria das estruturas clínicas para a construção do caso e para as decisões que se apresentam na condução de uma análise, tomando a histeria e a neurose obsessiva como referências centrais.

Objetivo geral

Estudar a direção do tratamento nas neuroses em Freud e Lacan, acompanhando o percurso clínico desde a chegada do paciente até a construção da hipótese diagnóstica, da transferência, das intervenções, dos impasses e da orientação do tratamento.

Conteúdo programático

ENCONTRO 1 — A chegada ao tratamento: sofrimento e queixa

O primeiro encontro aborda a chegada do paciente ao tratamento. A procura por análise pode ocorrer por decisão própria, crise, indicação, encaminhamento médico, demanda familiar, sofrimento amoroso, conflito profissional ou impasse institucional. O que se apresenta inicialmente como queixa ainda precisa ser escutado em sua relação com a história do sujeito, com o momento da procura e com o lugar atribuído ao analista. Serão discutidas as diferenças entre sofrimento e queixa, bem como as primeiras expectativas dirigidas ao tratamento: pedido de cura, conselho, diagnóstico, alívio, confirmação ou garantia. A aula também examinará como a histeria e a neurose obsessiva podem se apresentar nas entrevistas iniciais.

Elementos da escrita clínica: queixa e contexto de chegada.

Referências:

FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento.
FREUD, Sigmund. Recomendações ao médico que pratica a psicanálise.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud.

ENCONTRO 2 — Da queixa à demanda de análise

A queixa pode circular em muitos lugares: família, escola, trabalho, medicina, justiça, religião ou redes de cuidado. No tratamento analítico, ela precisa ganhar uma forma específica. Este encontro examina como aquilo que o sujeito leva ao analista pode se transformar em uma questão. Serão trabalhadas a diferença entre queixa e demanda, a função das entrevistas preliminares, a suposição de saber, a retificação subjetiva e as condições de entrada em análise. Na histeria, a demanda pode convocar o analista ao lugar daquele que sabe algo sobre o desejo. Na neurose obsessiva, pode aparecer como pedido de certeza, garantia ou autorização.

Elemento da escrita clínica: construção da demanda.

Referências:

FREUD, Sigmund. Sobre o início do tratamento.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder.
LACAN, Jacques. A significação do falo.
QUINET, Antonio. As 4+1 condições da análise.
MILLER, J-A. Lacan Elucidado

ENCONTRO 3 — O sujeito, seus significantes e sua relação com o Outro

A construção do caso clínico exige localizar como o sujeito se posiciona diante do sofrimento que relata. Importa acompanhar os significantes que se repetem, as cenas insistentes, as nomeações recebidas, os lugares atribuídos aos outros e as formas pelas quais o sujeito responde à demanda do Outro. Este encontro trabalhará a posição subjetiva, a retificação subjetiva, os significantes, as identificações e a relação com a lei, com o saber, com o amor, com o trabalho e com as instituições. A histeria e a neurose obsessiva serão examinadas a partir de suas formas distintas de responder ao desejo do Outro: pela insatisfação, pela dívida, pela culpa, pelo adiamento ou pela tentativa de controle.

Elementos da escrita clínica: posição subjetiva, significantes e relação com o Outro.

Referências:

FREUD, Sigmund. Estudos sobre a histeria.
FREUD, Sigmund. Fragmento da análise de um caso de histeria.
FREUD, Sigmund. Observações sobre um caso de neurose obsessiva.
LACAN, Jacques. Intervenção sobre a transferência.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente.

ENCONTRO 4 — Diagnóstico: o que orienta a leitura estrutural?

 O diagnóstico em psicanálise é uma hipótese construída no interior da transferência e orientada pela posição do sujeito diante da falta, da lei, do desejo, do gozo e do Outro. Na clínica das neuroses, a diferenciação entre histeria e neurose obsessiva permite pensar formas distintas de defesa, de relação com o desejo e de manejo transferencial. O encontro discutirá o diagnóstico estrutural como hipótese de trabalho, seus riscos quando formulado de modo precipitado e suas consequências para a condução do tratamento. A pergunta central será: que elementos permitem pensar o funcionamento subjetivo de um caso?

Elemento da escrita clínica: hipótese diagnóstica.

Referências:

FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 3: As psicoses.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder.

ENCONTRO 5 — Transferência e lugar do analista

A transferência e a resistência são condições necessárias para o tratamento analítico. Nelas, o analista passa a ocupar lugares que dizem respeito à história do sujeito, às suas fantasias, às suas demandas e aos seus modos de defesa. Por isso, a pergunta “que lugar o analista ocupa?” é indispensável para a construção de um caso clínico. O encontro abordará a transferência em Freud e Lacan, o sujeito suposto saber, o amor transferencial, a ambivalência, a resistência e a função clínica do enquadre. Dinheiro, horário, atrasos, faltas, divã, frequência e duração das sessões serão discutidos como elementos que participam do tratamento e podem revelar algo da posição subjetiva do paciente.

Elementos da escrita clínica: transferência; dinheiro, divã e horário.

Referências:

FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência.
FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar.
FREUD, Sigmund. Observações sobre o amor transferencial.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 8: A transferência.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.

ENCONTRO 6 — As intervenções e seus efeitos

A intervenção analítica não se define apenas pelo que o analista diz. Ela pode ocorrer por meio de uma pergunta, uma pontuação, uma citação da fala do paciente, um corte, um silêncio, uma escansão, uma mudança no tempo da sessão ou uma interpretação. O valor clínico de uma intervenção depende de seus efeitos: o que ela desloca, abre, interrompe, intensifica ou permite escutar. O encontro examinará diferentes modalidades de intervenção em Freud e Lacan, considerando as intervenções que são feitas como resultado imediato da escuta em análise e aquelas que são construídas a partir das supervisões e estudos teóricos. Aqui será debatida a importância da supervisão para a condução do tratamento e a proposta da escrita do caso clínico como início de uma supervisão. Também será discutida a diferença entre intervir na histeria e intervir na neurose obsessiva.

Elemento da escrita clínica: intervenções e efeitos.

Referências:

FREUD, Sigmund. Construções na análise.
FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos.
LACAN, Jacques. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 1: Os escritos técnicos de Freud.

ENCONTRO 7 — O Impasse clínico na construção de um caso

O último encontro reunirá os elementos trabalhados ao longo do curso. O impasse clínico será tomado como uma via de leitura de trechos de casos clínicos, desde os clássicos freudianos aos casos contemporâneos: aquilo que não anda, retorna, paralisa ou captura o analista pode indicar algo da posição do sujeito, da transferência e das respostas oferecidas pelo próprio analista. A direção do tratamento será pensada como construção a partir do caso, considerando o que convém sustentar, suspender, evitar ou recolocar. A pergunta final será: a partir da construção do caso, que orientação clínica se coloca?

Elementos da escrita clínica: impasse clínico e direção do tratamento.

Referências:

FREUD, Sigmund. Análise terminável e interminável.
FREUD, Sigmund. Construções na análise.
LACAN, Jacques. A direção do tratamento e os princípios de seu poder.
LACAN, Jacques. O ato psicanalítico.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise.